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MACRO · Carta do CIO Nº 09 · Set · 2026

O primeiro ano já está escrito.

Expectativa eleitoral, restrição orçamentária e o que o próximo governo encontra sobre a mesa em janeiro de 2027.

EdiçãoSet · 2026
CategoriaMacro · Brasil
Leitura12 minutos
AutorRicardo Veles · CIO
Publicação

Nas primeiras semanas de setembro, o mercado brasileiro fez um movimento raro. O Ibovespa emendou doze pregões consecutivos de alta, subiu 6,3% apenas na primeira semana do mês e ultrapassou 188 mil pontos, encerrando o pregão de 8 de setembro em 187.366 pontos, alta de 16,3% no ano. O dólar comercial recuou a R$ 5,0853, e o real consolidou-se entre as moedas de melhor desempenho global em 2026.

O gatilho declarado, repetido em relatório após relatório, foi um só: pesquisa eleitoral. Não foi lucro corporativo. Não foi revisão de balanço. Não foi ganho de produtividade. O que se moveu foi a expectativa sobre quem administrará a política econômica a partir de 2027.

Essa expectativa é legítima e pode se confirmar. Esta carta não trata de qual desfecho eleitoral é preferível — não temos posição sobre isso. Ela trata de uma pergunta anterior e estritamente aritmética: o que, exatamente, o próximo presidente encontra sobre a mesa, e em quanto tempo ele consegue mudá-lo? A resposta importa porque há um descasamento relevante entre o horizonte em que o mercado está precificando e o horizonte em que qualquer mudança pode produzir efeito.

§ 01 · O preço

O contraste entre preço e fundamento.

Vale registrar o contraste com precisão, porque ele é o ponto de partida de tudo o que se segue. Enquanto os ativos subiam, as projeções fiscais pioravam. Em 14 de agosto, o Prisma Fiscal do Ministério da Fazenda, que consolida as projeções de instituições de mercado, registrou deterioração em três das quatro séries relevantes: o déficit primário projetado para 2026 subiu de R$ 58,1 bilhões para R$ 59,1 bilhões; o de 2027, de R$ 53,9 bilhões para R$ 55,0 bilhões; e a dívida bruta projetada para 2027 avançou de 86,50% para 86,77% do PIB.

Preço e fundamento andaram em direções opostas dentro da mesma janela de trinta dias. Isso não é, por si só, uma anomalia — mercados precificam o futuro, não o presente. Mas obriga a uma pergunta objetiva: o futuro que está sendo precificado é executável, e em que prazo?

Convém separar, desde já, duas fontes de retorno que se somaram em 2026 e que costumam ser lidas como uma coisa só. Parte do desempenho brasileiro tem origem real e estrutural: a transição do país a exportador líquido de petróleo cru inverteu o sinal do choque de energia sobre as contas externas, e a alta das commodities passou a entrar na conta corrente como receita. Essa perna do retorno não depende de eleição alguma. A outra parte é a reprecificação de expectativa política das últimas semanas. São naturezas distintas, com prazos e riscos distintos — e é a segunda, não a primeira, que esta carta examina.

O que mudou em setembro não foi a restrição orçamentária brasileira. Foi a expectativa sobre quem irá administrá-la.

§ 02 · A primeira trava

92% do orçamento já está comprometido.

Em 1º de setembro de 2026 — antes, portanto, do primeiro turno — o Poder Executivo enviou ao Congresso a proposta de Orçamento para 2027. Os números merecem leitura atenta, porque descrevem o espaço real de manobra de qualquer governo que tome posse em janeiro.

O orçamento total soma R$ 7,4 trilhões, incluindo o refinanciamento da dívida. O número que importa, porém, é outro: o limite de despesas primárias sujeito ao arcabouço fiscal, de R$ 2,6 trilhões. Dentro desse limite, as despesas obrigatórias consomem R$ 2,38 trilhões — 92%. Sobram R$ 222,1 bilhões em despesas discricionárias, ou 8,5% do limite, e é desse resíduo que saem custeio da máquina pública, manutenção de serviços e investimento.

Orçamento 2027 · proposta enviada em 01/09/2026R$% do limite
Limite de despesas primárias (arcabouço)2,60 tri100,0%
Despesas obrigatórias2,38 tri91,5%
Despesas discricionárias — todo o espaço de escolha222,1 bi8,5%
   dos quais, investimentos133,8 bi5,1%
Benefícios previdenciários (dentro das obrigatórias)1,20 tri46,2%
Benefícios tributários estimados (fora do limite)567 bi

Um único item — os benefícios previdenciários — consome quase metade de todo o limite de despesa. E os benefícios tributários, que não passam pelo limite mas reduzem receita, somam R$ 567 bilhões, 2,5 vezes tudo aquilo que o governo pode discricionariamente decidir gastar.

A consequência prática é direta: um presidente que tome posse com o mandato mais claro possível para mudar a política fiscal encontra 92% do orçamento já endereçado por lei, por Constituição ou por vinculação. Alterar esse percentual não é matéria de decreto nem de vontade — exige emenda constitucional, negociação legislativa e, em vários casos, transição de anos. O tempo político disso não se mede em meses.

§ 03 · A segunda trava

A dívida cresce pelo carrego, não pelo gasto novo.

Há um segundo mecanismo, menos discutido e mais determinante, e ele independe por completo de quem governa. Nos doze meses encerrados em março de 2026, o setor público brasileiro pagou R$ 1,08 trilhão em juros nominais — 8,35% do PIB. No mesmo período, a Dívida Bruta do Governo Geral alcançou 80,1% do PIB, ou R$ 10,4 trilhões.

A decomposição divulgada pelo Banco Central é o dado central desta carta. Do aumento de 1,4 ponto percentual do PIB na dívida bruta, 2,4 pontos vieram da incorporação de juros nominais e apenas 0,4 ponto de emissões líquidas. Em outras palavras: mesmo com o resultado primário próximo do equilíbrio, a dívida cresce por conta própria, pelo custo de carregá-la.

Para dimensionar: a conta anual de juros equivale a 4,9 vezes todo o orçamento discricionário da União e a 8,1 vezes tudo o que está previsto em investimento para 2027. Nenhum programa de corte de gastos plausível, em nenhum cenário político, produz economia dessa ordem de grandeza no curto prazo.

A conta de juros de um ano equivale a quase cinco vezes tudo aquilo que o governo federal pode escolher gastar.— Carta do CIO Nº 09 · Setembro de 2026

Isso cria uma circularidade que nenhum resultado eleitoral desfaz por decreto. Reduzir a conta de juros exige queda da Selic e do prêmio de risco. A queda sustentada do prêmio de risco exige credibilidade fiscal. A credibilidade fiscal exige melhora do primário. E a melhora do primário exige mexer nos 92% obrigatórios — o que, por sua vez, exige tempo legislativo. O ciclo se fecha, e ele se fecha em anos, não em trimestres.

Com a Selic em 14,00% ao ano desde 5 de agosto e o CDI corrente em 13,90%, esse carrego é simultaneamente o problema fiscal do país e o prêmio que remunera o investidor local. É a mesma variável entrando duas vezes na conta, com sinais opostos — e é por isso que ela raramente é lida corretamente.

§ 04 · A terceira trava

O primeiro ano já foi escrito.

A terceira restrição é a mais simples de verificar e a menos mencionada. A proposta orçamentária de 2027 foi enviada ao Congresso em 1º de setembro de 2026. O próximo presidente toma posse em 1º de janeiro de 2027. Ele governará o primeiro ano de mandato sob um orçamento que não elaborou, discutido e aprovado por um Congresso eleito na mesma eleição, mas cujo texto-base foi construído antes da apuração.

Um novo governo pode enviar créditos, remanejar dentro dos limites e propor alterações. O que não pode é reescrever a estrutura do gasto de 2027 dentro de 2027. A primeira peça orçamentária efetivamente sua será a de 2028, elaborada ao longo de 2027 e executada a partir de janeiro de 2028.

Some-se a isso o tempo de nomeação de equipe econômica, de construção de base parlamentar e de tramitação de qualquer matéria estruturante, e o horizonte realista para que uma inflexão de política fiscal apareça em dado observável — não em discurso — é 2028.

§ 05 · O descasamento

Dezesseis meses de distância.

Reunindo as três travas, chega-se ao ponto que motivou esta carta. O mercado está precificando em setembro de 2026 uma mudança cujo efeito prático sobre a aritmética fiscal começa, na hipótese mais favorável, dezesseis meses depois. Entre uma coisa e outra, o investidor local carrega a posição a um custo de oportunidade de aproximadamente 14% ao ano — porque é isso que o caixa remunerado rende enquanto ele espera.

Três consequências decorrem, e nenhuma delas depende de preferência eleitoral.

  • A assimetria se inverteu. Depois de doze pregões consecutivos de alta, o cenário que o mercado espera está, por definição, majoritariamente incorporado ao preço. O cenário alternativo não está. O acerto paga pouco; o erro cobra caro.
  • O instrumento de convicção é frágil. A base informacional do movimento é pesquisa eleitoral, que carrega margem de erro estatística e instabilidade temporal. É um alicerce adequado para dimensionar um trade de evento; é insuficiente para dimensionar uma posição estrutural de patrimônio.
  • A categoria da posição está trocada. Um investimento cujo gatilho é político e cuja data é conhecida é, tecnicamente, um trade de evento — e exige o dimensionamento, o horizonte e o ponto de saída de um trade de evento. Tratá-lo como alocação estrutural de longo prazo é o erro que costuma aparecer depois, quando já não há o que fazer.
§ 06 · Estrutura de patrimônio

Uma disciplina de classificação.

Nada do que está escrito acima constitui uma recomendação de reduzir exposição a Brasil, e esta carta não faz recomendação alguma. O que ela propõe é uma disciplina de classificação.

As três disciplinas

Primeiro, separar prêmio de risco de prêmio de narrativa. Parte do retorno de 2026 remunera fundamento — termos de troca, resultado corporativo, diferencial de juros. Parte remunera expectativa política. As duas parcelas têm naturezas, prazos e riscos diferentes, e a carteira que as soma em uma linha só não sabe qual está carregando.

Segundo, datar a tese. Se a exposição foi montada por expectativa eleitoral, ela tem data de verificação. Uma posição com data pede um plano para essa data — definido antes dela, não depois.

Terceiro, medir a exposição líquida ao evento. Bolsa doméstica, prefixado, crédito privado local e câmbio respondem de maneira distinta, e em parte oposta, a um mesmo desfecho político. Uma carteira agregada sob o rótulo “Brasil” costuma esconder essas exposições em vez de revelá-las.

A eleição altera a probabilidade de um ajuste fiscal. Não altera o tamanho dele.— Carta do CIO Nº 09 · Setembro de 2026
§ 07 · Falseamento

O que nos faria mudar de opinião.

Uma tese que não define suas próprias condições de falseamento é uma opinião. Três desenvolvimentos nos levariam a rever o que está escrito aqui, e listá-los é parte da disciplina.

  • Uma agenda estruturante aprovada, não anunciada. Se, ao longo de 2027, matéria que altere a rigidez dos 92% — desvinculação, revisão de indexadores, reforma de benefícios tributários — avançar efetivamente no Congresso, e não apenas for enviada, o horizonte de 2028 se antecipa e a precificação atual deixa de parecer apressada. O teste é aprovação em plenário, não intenção declarada.
  • Uma inflexão na composição da dívida. Se o crescimento da dívida bruta passar a ser explicado majoritariamente por emissões líquidas e não por incorporação de juros, isso indicará que o carrego cedeu — e o carrego é a variável que trava tudo o mais. É um dado observável mensalmente nas estatísticas fiscais do Banco Central, e não depende de interpretação.
  • Uma queda do prêmio de risco que sobreviva ao evento. Se, passada a data eleitoral, a curva longa e o prêmio de crédito permanecerem comprimidos por alguns trimestres, a hipótese de que o movimento foi estrutural, e não de posicionamento, ganha força.
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Carta do CIO Nº 09 · Macro Brasil
Ricardo Veles · Managing Partner & CIO
São Paulo · London
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