O Brasil cresceu 3,4% em 2024 e cerca de 2,3% em 2025, mas o impulso está arrefecendo. Com a Selic a 14,25% e juros reais ex-ante perto de 9%, o consumo das famílias e o crédito perdem tração, enquanto o agro e o setor externo seguram o resultado. Nossa leitura de curto prazo (nowcast) coloca o PIB de 2026 em torno de 1,9%, alinhado ao Focus e abaixo da projeção oficial de 2,3% da Fazenda.
A desaceleração ordenada.
A tese central é que 2026 é um ano de pouso, não de queda. A política monetária mais restritiva do mundo desenvolvido e emergente está finalmente transmitindo para a demanda doméstica, mas o ponto de partida do emprego e da renda é forte o suficiente para evitar uma recessão. O resultado é uma convergência do crescimento para algo entre 1,5% e 2,3%, com viés para a metade inferior dessa banda.
O erro de consenso não está no número do PIB, e sim na composição: o mercado ainda subestima quanto da resiliência de 2024-2025 veio de impulso fiscal e crédito direcionado, fatores que perdem força em 2026.
Fonte · Sigma Research Desk · bandas de probabilidade calibradas, cenário-base: Desaceleração ordenada.
O que os dados rápidos mostram.
Indicadores coincidentes (produção industrial, vendas no varejo, serviços e arrecadação) apontam para um primeiro semestre morno. O crédito livre desacelera com juros altos, enquanto o mercado de trabalho permanece apertado, com desemprego perto de mínimas históricas (~6,2%), o que sustenta a massa de renda real e o consumo essencial.
A divergência entre uma demanda ainda resiliente e uma política monetária dura é a marca do ciclo: o aperto funciona, mas com defasagem longa.
Os números do painel.
| Indicador | Realizado / Atual | Consenso 2026 | Fonte |
|---|---|---|---|
| PIB real (var. anual) | 3,4% (2024) / ~2,3% (2025) | 1,9% (Focus) · 2,3% (Fazenda) | IBGE/Focus |
| IPCA acum. 12m | 4,72% | ~5,1% (acima do teto) | IBGE/Focus |
| Selic | 14,25% | 13,50% (terminal Focus) | BCB/Copom |
| Desemprego (PNAD) | ~6,2% | ~6,5% | IBGE |
| Resultado primário (gov. central) | Déficit ~R$ 72 bi | ~0% do PIB (meta) | STN |
| DBGG (% do PIB) | 78,7% (dez/25) | 82,4% · pico 88,6% em 2032 | STN/IFI |
| Balança comercial | Superávit | US$ 70-90 bi | MDIC/Fazenda |
| USD/BRL | ~5,15 | 5,30 (Focus) | BCB/B3 |
| Ibovespa | ~168 mil pts | - | B3 |
Crescer ~1,9% com Selic a 14,25% e inflação projetada acima do teto é sinal de uma economia com demanda resiliente e oferta restrita, não de fraqueza cíclica. O risco não é recessão; é inflação persistente que adia o ciclo de cortes.
O que pode tirar o pouso do rumo.
Há dois riscos simétricos. Para baixo, um aperto de crédito mais agudo ou um choque externo (commodities, EUA) que derrube o investimento. Para cima, um novo impulso fiscal pré-eleitoral que sustente o consumo e force o BC a manter juros altos por mais tempo, trocando crescimento de curto prazo por inflação e dívida adiante.
Três trajetórias para o PIB.
O que a mesa faz com isso.
- 01Tratar 2026 como ano de pouso: posicionar para desaceleração gradual, não para recessão.
- 02Monitorar crédito livre e inadimplência como termoômetro antecedente da demanda.
- 03Preferir setores defensivos e de renda em ações enquanto os juros reais seguem altos.
- 04Usar a resiliência do emprego como suporte para teses de consumo essencial, não discricionário.
- 05Acompanhar o viés fiscal pré-eleitoral como principal risco de prolongamento dos juros altos.
IBGE / SIDRA (PIB, PNAD Contínua, IPCA); Banco Central do Brasil / SGS e Boletim Focus; Tesouro Nacional / Tesouro Transparente; IPEAData e Instituição Fiscal Independente (IFI); Ministério da Fazenda (projeções macrofiscais 2026); B3 (Índice Bovespa e fluxo estrangeiro); Agência Brasil (divulgações do Boletim Focus, abr-mai 2026). Estimativas e bandas de probabilidade do Sigma Research Desk, revisadas a cada fechamento. Distribuição institucional. Este material não constitui recomendação de investimento individual.